as manhãs começavam com o toque da campainha e a voz sonora da avó:
leiteira!, dizia, e a rotina diária desenrolava-se como um desenho animado, daqueles que podiam ser vistos ao domingo.
saltava da cama, enfiava as botas de agasalho, passava pela cozinha, onde o jarro esperava o seu resgate na ponta da banca de mármore e galgava as escadas em frenética descida, que uma vez lhe valeu uma cabeça rachada.
abrir a porta não era tarefa fácil.
enquanto dizia a plenos pulmões, já vai senhora isabel, pousava o jarro, corria o ferrolho, rodava a respeitável chave e puxava finalmente o trico, afastando a pesada porta que deixava entrar a nua clareza da rua.
a senhora isabel media um litro, por favor, dizia até amanhã menina e fazia a incrível proeza de voltar a encarrapitar na cabeça, sobre uma rodilha em perfeito círculo, o jarro do leite, depois de lhe pendurar a medida na asa.
então voltava lentamente para cima, a aspirar aquele cheiro intenso a animal que o leite tinha, um cheiro a feno e a coisa viva, que só a sentir-se na boca se definia.
só por si, esse cheiro irrepetível transportava-a para os campos quase sem fim que se viam da janela das escadas do sotão, como se entrassem pela casa
cheiro a ervas, terra e liberdade
a janela não era bem uma janela, era mais um anfiteatro ao ar livre
nem a grade miudinha, de galinheiro, que a cobria (toda não, havia uma pequena e milagrosa abertura onde uma mão muito enrolada podia caber) escondia tão fantástico potencial
dali via-se tudo, numa extensão de muitos quilómetros, até ao recorte imponente das distantes serras do gerês
sábado, 3 de abril de 2010
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visualizei tudo apenas com a luz do texto..brilhante ! tanto, que até me apetece acrescentar, que depois de fervido, o leite apresentava uma nata espessa e amarelada que pareciam farrapos quando na língua, que se soprava com força por entre queimadelas nos lábios, e o calor que a caneca transmitia às mãos. e a avó tirava o fervedor do fogão a lenha com as mãos nuas, sem se queimar - constatava eu, com um misto de admiração e espanto.
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