sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

su-shi

sushi. nunca comera.
durante muito tempo a comida dividia-se em dois géneros: a boa e a estragada.
a estragada não se podia comer embora às vezes se comesse.
a boa era toda a que não estava estagada. podia-se comer. às claras, às escondidas, com fome ou sem fome nenhuma, mas podia-se comer.
nunca ter comido sushi não era estranho. estranho era comê-lo porque aquilo não era comida.
o nome era giro. podia ser nome de bicho ou de flor mas não de comida. a boca fazia um movimento esquisito para dizer su-shi. era logo palavra que esvaziava e enchia a boca ao mesmo tempo: su-shi.
o sabor era de coisa boa, não por não estar estragado mas por ser bom.
desfazia-se contra o céu da boca com a língua para espalhar um sabor forte e doce
feito de cheiros, a terra, a mar e a fresco.
subia pelos maxilares, passava da boca ao osso e aparecia atrás das orelhas, num arrepio de riso desatado por dentro.

confissões de uma técnica de eutanásia

Abaixo está a tradução de um post encontrado num blog que nos dá uma visão de dentro sobre um dos lados mais discriminados da área de acolhimento e tratamento de animais abandonados. Foi escrito por Jessica Stout uma profissional na área animal dos Estados Unidos da América.

"Ser técnica de eutanásia foi sem dúvida a parte mais difícil da minha carreira na área animal. Quando trabalhava para o canil municipal não recusávamos qualquer animal, independentemente de serem ou não adoptáveis. Tinhamos mesmo um contrato que definia que deveriamos eutanasiar animais que considerássemos, sob o nosso critério exclusivo, dever ser abatidos.

Na sua maioria os técnicos de eutanásia abstraem-se do seu dia-a-dia trocando piadas uns com os outros e desligando aquelas vozes que surgem das nossas entranhas e nos dizem que somos os maiores traidores do mundo. Afinal supostamente estamos ali para proteger os animais, correcto? E assim conseguimos erguer uma carapaça à nossa volta que nos protege, ou impede, de ver a realidade do que fazemos. Nós matamos animais. Nós matamos animais que estão doentes e idosos. Nós matamos animais com dificuldades de socialização e/ou perigosos. E matamos animais que são saudáveis e adoptáveis mas que simplesmente não são pretendidos por ninguém. Esta é a realidade do nosso trabalho.

Matar os animais doentes, idosos e problemáticos que não se adequam para adopção, mesmo sendo difícil é mais fácil de justificar do que matar os animais adoptáveis. Mas na verdade quando temos 300 boxes, estamos com a lotação permanentemente esgotada e surgem diariamente 20 a 50 animais para acolher diariamente, algo tem que ceder. E é nessa altura que os animais saudáveis e adoptáveis são ´destruídos´.

Há alturas em que a nossa carapaça quebra. São essas rachas inevitáveis que permitem a infiltração da realidade daquilo que fazemos. Há coisas que me sobressaiem constantemente na memória, que ficaram gravadas para sempre, e nunca mais esquecerei. Passei a minha vida a prestar auxílio a animais, retirá-los de situações críticas para situações confortáveis. Dediquei a minha vida a ajudar a aliviar o seu sofrimento, e a ser uma voz em sua defesa. Apesar das centenas de animais que salvei ao longo dos anos, ainda há alturas em que paro e penso sobre o tempo em que fui técnica de eutanásia, e a magnitude do que fiz esmaga-me completamente. Apenas me permito fazê-lo por um curto período de tempo porque temo que se me dedicar a pensar profundamente no que fiz isso me possa destruir. Infelizmente vi isso acontecer a muitos dos meus colegas e em resultado um deles cometeu suicídio e muitos outros recorreram ao álcool para afogar as suas mágoas.

O próximo parágrafo é duro pelo que se não tiverem o estômago para ler um pouco mais sobre animais adoptáveis eutanasiados sugiro que saltem a sua leitura.

Penso muitas vezes numa adorável pequena cadela labrador preta que esteve para adopção 2 meses até que chegou a altura em que tivemos de a abater porque não tinhamos espaço, porque o seu tempo tinha expirado. Ela olhou para mim com os seus grandes e castanhos olhos que confiavam plenamente em mim, deu-me a sua pata quando a pedi, e lambia-me a face enquanto a injectava com a solução que a eutanasaria. Penso no homem que nos trouxe 10 cachorros de oito semanas para serem adormecidos porque ia de férias e não queria cuidar deles. Penso como eles sem suspeitar se enrolavam e brincavam uns com os outros enquanto eu os apanhava um a um e lhes ceifava a vida. Penso nas inúmeras gatas ferais mães que olhavam completamente aterrorizadas enquanto nós lhes retirávamos as crias, as matávamos e de seguida matávamos a mãe. Penso no dia em que nos foram entregues 72 gatos saudáveis e adoptáveis para serem mortos numa tarde.

Como gostaria de dizer que foram apenas casos excepcionais, que isto não foi o que fiz diariamente durante 3 anos. Mas a verdade é esta. É o que um técnico de eutanásia enfrenta diariamente no seu emprego. E fazêmo-lo porque nos importamos. Porque sabemos que tem de ser feito por alguém, e que ao menos quando nós o fazemos, aquele animal receberá a última festa na cabeça ou coçadela atrás das orelhas. E cada vez que alguém do público nos chama "assassino de animais", porque não percebe a realidade daquilo porque passamos, isso magoa-nos.

Existe uma história muito conhecida sobre uma técnica de eutanásia que sonhou numa noite que tinha falecido e ido para o céu onde todos os animais que já tinha eutanasiado estavam por trás dos portões pérola e não a deixavam entrar. Eu gostaria de acreditar que os animais percebem melhor o que fazemos do que o público em geral o parece perceber. Gostaria de acreditar que eles apreciariam os homens e mulheres que assumiram esse papel para assegurarem que este mal necessário é feito da melhor forma possível. Pensando melhor, talvez esteja a ser idealista e é apenas o modo que encontrei de manter a minha carapaça resistente e inquebrável. Suponho que nunca o saberei."

Jessica Stout


Fonte: http://animaladvocating.com/confessions-of-a-euthanasia-technician/

o improviso de viver

Voltaremos muitas vezes a um jardim de plátanos
com o luar engatilhado nos olhos.
Dir-te-ei nomes de estrelas ao acaso,
como um desvio da fronteira desenhada ao redor de nós.


Lado a lado, iremos rever novembro pelas ruas,
devassando vigílias, cantando em surdina
a intimidade de sermos amantes,
neste percurso de pássaros subitamente em fuga.
As árvores são discretas.


Por isso, levar-te-ei para habitares comigo
o improviso de viver.
Estaremos em toda a parte.


Sobrevoaremos os espaços interditos
e seremos a notícia anunciada
pela voz indomável dos que ostentam na boca
a urgência dos beijos e do riso.



Vem comigo, amor.
No escuro chegaremos à fonte pelo cheiro da sede
e moldaremos na água a transparência dos momentos
em que a madrugada se comove.



Graça Pires

bobby brown

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

felicidade

resiliência

Existe uma pseudo-assepsia nas teorias da educação.
Não se pode bater nos meninos, nada de ralhar ou, mesmo, contrariá-los. Podem ficar traumatizados.
Esta teoria é contestada pela observação de que a vida é traumática: não consta que as crianças nasçam a rir ou com um ar de satisfação. O que importa não é o trauma, mas o modo como cada um o supera e aprende com ele.

De facto, não são os filhos da teoria atraumática que farão história. Pelo contrário, a história está cheia de grandes personagens que passaram uma infância difícil: pais alcoólicos ou ausentes, maus tratos e mau viver. A tudo resistiram e com as desgraças fizeram a sua grandeza.

Um dos exemplos é Charlie Chaplin. Criado numa família desfeita, teve de trabalhar aos 5 anos, aos 9 perdeu o pai e viu a mãe internada num sanatório, passando depois por orfanatos e ambientes pouco recomendáveis, onde construiu as principais ideias para os seus filmes. Esta capacidade de superar as adversidades chama-se resiliência.

Os psicólogos têm estudado os factores relacionados com a resiliência. Saber adiar as recompensas, assumir responsabilidades sem culpar os outros pelas suas desgraças, desarmar os outros com o humor e a criatividade, manter a iniciativa, são factores importantes, ilustrados exaustivamente nos filmes de Chaplin.

Mas um outro factor, menos visível, é constante nas pessoas resilientes: algures, seja lá onde for, há sempre alguém que acredita incondicionalmente nelas.

J.L. Pio Abreu - psiquiatra